domingo, 30 de agosto de 2009

A Tempestade (Khalil Gibran)

Pássaro e o homem tem essências diferentes.
O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas;
o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos.
Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra.
Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos.
Muitos levantam a cabeça acima dos montes;
mas sua alma jaz nas trevas das cavernas.
A civilização é uma arvore idosa e carcomida,
cujas flores são a cobiça e o engano e cujas frutas
são a infelicidade e o desassossego.
Deus criou os corpos para serem os templos das almas.
Devemos cuidar desses templos para que sejam
dignos da divindade que neles mora.
Procurei a solidão para fugir dos homens, de suas leis,
de suas tradições e de seu barulho.
Os endinheirados pensam que o sol e a lua e as estrelas se levantam
dos seus cofres e se deitam nos seus bolsos.
Os políticos enchem os olhos dos povos com poeira
dourada e seus ouvidos com falsas promessas.
Os sacerdotes aconselham os outros,
mas não aconselham a si mesmos,
e exigem dos outros o que não exigem de si mesmos.
Vã é a civilização. E tudo o que está nela é vão.
As descobertas e invenções nada são senão brinquedos
com a mente se diverte no seu tédio.
Cortar as distâncias, nivelar as montanhas,
vencer os mares, tudo isso não passa de
aparências enganadoras, que não alimentam ocoração e nem elevam a alma.
Quanto a esses quebra-cabeças, chamados ciências e artes,
nada são senão cadeias douradas com os quais o homem
se acorrenta, deslumbrados com seu brilho e tilintar.
São os fios da tela que o homem tece desde o inicio
do tempo sem saber que, quando terminar sua obra,
terá construído a prisão dentro da qual ficará preso.
Uma coisa só merece nosso amor e nossa dedicação, uma coisa só...
É o despertar de algo no fundo dos fundos da alma.
Quem o sente não o pode expressar em palavras.
E quem não o sente, não poderá nunca conhecê-lo através de palavras.
Faço votos para que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir delas.


Gibran Khalil Gibran (1883-1931)

À espera dos bárbaros (Konstantinos Kaváfis)

O que esperamos na ágora reunidos?


É que os bárbaros chegam hoje.


Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?


É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.


Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?


É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.


Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?


É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.


Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?


É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.


Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?


Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.


Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Stuart Edgard Angel Jones

"Mãe você me pergunta se eu acredito em Deus. Eu te pergunto que Deus? Tem sido minha missão te mostrar Deus no Homem, pois, somente no homem ele pode existir. Não há homem pobre ou insignificante que pareça ser, que não tenha uma missão. Todo homem por si só influencia a natureza do seu futuro. Através de nossas vidas nós criamos ações que resultam na multiplicação de reações. Esse poder que todos nós possuímos, esse poder de mudar o curso da história, é o poder de Deus. Confrontado com essa responsabilidade divina, eu me curvo diante do Deus dentro de mim."

Stuart Edgard Angel Jones

sábado, 8 de agosto de 2009

À meu pai

Carta Para Si Mesmo
Danilo Dal Farra Ribeiro


E como se praquele menino
valesse a eternidade de cada pedra que existe,
fez uma casa delas, bem pequenas,
mas cada uma.

De valor tão inestimável
que não poderia existir concretamente.

Das pedras ouvi histórias
de uma esperança romântica
que se fez vivida numa realidade concreta.

Cada pequena tem sua versão,
mas todas dizem do menino-Deus-humano
que queria mudar o mundo.

Mudar o mundo é muita coisa.

E ali ele se deitou,
no telhado de sua primeira casa,
a ensinar os filhos a contar estrelas,
como quem contempla uma infinita missão.

Dançou e girou ao som dos poetas
que falavam palavras suas.
Embalou suas crias no colo
enquanto dirigia rumo a esse infinito que abriu.

As pedras colhidas,
cada vez mais longe,
contam de um navio que descobre mares.

Todas as roupas foram lavadas ali mesmo,
ao abrir de novos nasceres,
novos sóis.

Encontrou terras e correu sobre elas,
empinando pipas e entregando-as
aos novos meninos,
que não mais precisariam ir a venda
buscar café.

Jogou-os por cima do ombro
a caírem nas águas
que caía sozinho.
Tinha que dividir a alegria
que não teve de ser menino.

Deus-homen-super-homem.
Mudar o mundo é muita coisa.

Continuou a escalar colinas
com eles no cangote
para que vissem horizontes
que não o foram mostrados.

Caiu de pé tantas vezes
mordendo a mandíbula
para que não o socorressem.
Nos olhos de seus filhos
fez brilhar todas as sensações
que não pudera viver.

Menino-Deus-humano.
Carne e osso.
De levantar paredes
ganhou calos de vida.
Mudando paisagem
na força do punho do dia-a-dia.

Fez jardins.

Aí escorre dele a lágrima calada.
Sentado, corre pra si,
e volta ao trabalho.

Menino que fez brilhar o sonho de tanta gente.
As pedras, as estrelas, a água...
E o jardim? E o vento? E a varanda?
O fogão de lenha? A rede?

A vida é uma carta
que a gente escreve
pra gente mesmo.

E no meio da noite
o menino pega seu lápis
e senta no chão
ao lado das brasas
do fogão de lenha e começa:

“Filho, se um dia ler esta carta,
saiba que escolhi não cumprir
o destino que me deram.
Se vou morrer um dia,
vou morrer pela vida.”




Nunca vi uma pedra mentir
E tem uma certa alegria nisso
Pois elas confessavam, cúmplices,
segredos desse menino.

Uma mão a mim e a outra a tudo que existe.
E assim vamos os três,
graves como convém
a um Deus e a um poeta,
recolhendo as próximas.

Desenhou um sol.
Um sol mal pintado.
Feito à mão.
E me ensinou a rir do simples
e me emocionar com ele.

Aquele sorriso do menino me intrigava.
Um entendimento puro.

Mudar o mundo é muita coisa.

Aquele sorriso me gerou um momento inacabado.
Não por falta de fazer, mas pela generosidade
de se permitir ser continuado.

Guardei o presente.

Hoje sigo esse caminho que é também desse menino.
Ele segue sorrindo em meus sonhos,
como se soubesse onde vai dar essa estrada.
Ao meu lado descubro outros olhos que se fazem brilhar.
Talvez centenas, que um dia também sonharam com ele
e respiraram dessa esperança, dessa coragem.

Uma mão pousada sobre o peito
que constrói toda uma casa
de pequenas pedras,
com lareira e coberta.

Pra que, algum dia, que tu sabes qual é,
se encontre consigo mesmo
a entregar essa carta.
E que esse seja seu melhor momento.

(Inspirado em “O Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro)

Dedico a meu Pai – o menino.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Manifesto Poético

Só o afeto nos põe em contato real conosco e com os outros. O afeto não passivo, o afeto atuante, fruto de uma agressividade por vida, como a árvore que quebra, com suas raízes, o concreto das calçadas.Contra toda hipocrisia de sorrisos amarelos e relações à meia ponta, eu apelo pela urgência deste contato. Pela liberdade de ver, olhar, enxergar, de verdade, toda a verdade, seja ela o que for, sem filtros, e tocá-la, tendo ela a aparência que tiver, tendo ela defeitos na pele.

Que essas verdades sejam berradas nas ruas, que as troquemos nas praças, que dancemos com todas nos palcos, que nos embriaguemos das nossas e quantas mais quisermos. Que elas possam ser feias e bonitas, boas e más, como as coisas que são desse mundo. E que, ainda assim, possam se transformar a qualquer momento.

Queria me fazer entender de modo ríspido e simples como tiro no peito, mas sou poeta, vejo cenas do meu passado. Vejo um ensaio de escola de samba no morro, uma Folia de Reis que corre a rua, uma feira folclórica com poetas e cantadores. Vejo também pessoas comprando em um grande shopping da cidade grande, grande, grande, tão grande que não me lembro...Vejo o menino correndo nu, filho de todo mundo. Vejo-me garoto, comendo no prato de alguém que não sei quem, naquela multidão de rostos fraternos da praça da igreja. Vejo também, desde sempre, tantas crianças artistas. Mas vejo os falsos poderes e o número de fitas de videogame, o olhar distante, muros altos, crianças adultas... Espera aí, Espera aí... Eles se esbarram, duas crianças, uns seis anos mais ou menos, eles se olham... Mas o tempo dos adultos lembra que é hora, que é hora, que é hora, da aula de inglês, do kumom, da computação... Porque eles serão preparados para o mundo, para o futuro, para aprender as coisas que os adultos têm para ensinar.

INDIGNAÇÃO! Mesmo que poética, INDIGNAÇÃO!

Pessoas constroem muros entre elas enquanto a religião derrama culpa num caldo grosso de moldes sociais onde, mergulhados, desistimos de tentar nadar até o outro...Pois não desistam! Não desistam de tocar no que é você e no que são os outros. Logo aí depois das máscaras!Que as televisões sejam desligadas e que as pessoas conversem, que saiam da internet e se reúnam ao redor de grandes fogueiras, tocando, cantando e fazendo poesia. Que possam se olhar nos olhos e que nesses olhos vejam a si mesmas para então poderem falar de amor. De amor de verdade. Sem subir de volta a superfície, mas mergulhando cada vez mais fundo no olho do outro, onde possam encontrar o contato verdadeiro e que, por causa dele e através dele, se expressem. Que essa expressão seja sincera, espontânea e divina como a de criança humana. Que rompa a neblina e quebre os muros dos labirintos criados pela falta desse amor. E que os olhos vejam só os olhos. Que esse olhar faça brotar flores e amarelas elas sejam, para colorir esse caminho que é de cada um e é de todos. E assim, entendam todos que o pecado é não viver. E que a compreensão da mais pura das verdades, que é a da necessidade do outro e de si próprio, leve consigo, como forte vento, todos os medos.
Que as pessoas se toquem, troquem afeto e sejam, simplesmente sejam, como humanas crianças eternamente, assim como o Cristo do Poeta o fez.Agradeço aos qua acreditam em mim, me estimulam e incentivam e também aos que não acreditam, me provocam, me testam e me fazem reagir.

Dedico este manifesto simples e talvez ingênuo, aos meus amigos artistas. Pelo contato e afeto que, muitos sem saber, me dedicaram, me fazendo recordar que nossa arte é sobre relações humanas e generosidade. Obrigado.

Danilo Dal Farra

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Expansão - Evolução

O momento presente pede o querer,
Expansão de consciência, de criatividade, de sensibilidade.
É preciso querer antes de mais nada.
Depois entender os princípios esquecidos e voltar às raizes.
Desaprender pra lembrar.
Lembrar que evolução começa na saúde, física, mental, emocional, espiritual...
Se realimentar bem nessas camadas.
Cuidar das relações e revisitar o pequeno, o simples.
Lembrar dos ensinamentos: Os opostos se somam e ampliam.
Cuidemo-nos

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Manifesto

O que me encanta no teatro é esta possibilidade de escolher. Assim, escolho para mim o Teatro de verdade. Aquele teatro que tenha o mínimo possível de efeitos, o mínimo. E que contenha a máxima teatralidade em si próprio. Que na figura do humano no palco se realize uma alquimia única: aquela em que a realidade da representação (da reapresentação) é mais vibrante que o próprio tempo cronológico. Que critique esse tempo, que revele esse tempo. Que nesse começo de século o teatro possa reafirmar o sentido essencial como bem mais evidente que matéria descartável. Quero trocar a fantasia da composição teatral pela presença viva do ator. Acredito na relação de nova realidade que se faz na força da presença viva do ator, engajado na história com suas idiossincrasias, sem recursos do fabricado, limpidamente como água na fonte. Os valores do palco muitas vezes estão povoados de valores de bastidor, de camarim. Quero o palco nu. Os figurinos, cenários e discursos radiofônicos muitas vezes acoplam parasitárias imagens no ator. Não quero decoração. Quero no seco. Com raiva decreto o fim do excesso. A pirotecnia mente. Quero sinceridade. No lixo o broche. No palco o peito. O ritmo e o espaço em si trazem diagramas teatrais vertentes de riqueza. Cervantes e a palavra, Beethoven e a nota, o teatro e o ator...
Como ator, autor, palhaço, minha preocupação sempre é o poder, as injustiças sociais, os comportamentos padronizados, a estética e a ética rançosa do sistema patriarcal capitalista. Cada vez mais estou menos interessado nos movimentos microcósmicos da sociedade. Cada vez menos cultivo ídolos. Cada vez menos acredito no best-seller. O senso comum está desmistificado no Brasil que pára para ver novela. Que elege seus mitos com os mesmos parâmetros com que reclama, invariável e passivamente, do governo. Essa sociedade que se protege no útero do padrão. Cada vez mais estou mais anarquista. Cada vez mais rio dos políticos (dos de profissão e dos de atuação). Cada vez mais me salvo pelo caminho pessoal, individual, único. Aos meus ex-alunos sempre digo, se me perguntam o que fazer: inventem, porque os princípios estão rangendo, há algo de podre em todos os lugares. Trabalho pelas gerações que virão, não tenho a menor crença no resultado imediato. Mas sei que o Teatro verdadeiro altera algumas bases do nosso mundo. Quero uma organização mais limpa da comunicação. Que se respire menos barrocamente nesta área. Odeio a maior parte das regras de nossa organização social. Considero antivida, com cheiro de mofo, todos os cânones comportamentais, o gosto da estética burguesa, a despersonalização de colonizado. A morna atitude de nossa nação mediocriza nossa experiência vital. Aí nossa cultura reflete esse cômodo respirar consumista, essa falta de diversidade. Esse pequeno clube de interior, que é nosso ambiente cultural, se ressente. Ser artista aqui exige que se enfrente o solitário desejo pessoal de mudar, de inventar, de renovar. Quanto ao mercado, sobreviver dentro dele já é outra perspectiva. Igual a qualquer outro mercado. Acrescido do abandono do que seja arte numa Republiqueta.
Artista tem ouvido de tuberculoso. Político é sadio. As pessoas pensantes, não as que não gostam de pensar, mas as que saboreiam o cérebro e acariciam a alma, estão muito preocupadas. Com o vírus, com o fim. Tudo está muito urgente agora. Os valores se atropelam. Há muitos espetáculos de teatro que olho e penso: mas isso é pré-Aids, agora não é mais assim.
Estou mais apto hoje, para os inimigos. Me sinto mais categorizado com a raiva sem fim que trago contra a banalização, o superficial. Convivi muito com o suicídio mental para despertar hoje os princípios da sobrevivência com know-how. Escolher e alimentá-los. A ilusão morreu. Depois recolhemos a placenta e a comemos como vaca. Amamentou-se o feto. Deu no que deu: maturidade. Aceito o fim como presente de poderosos: somente kharmas autônomos o enfrentarão com criatividade e vitalidade. A verdade hoje assumiu-se como passaporte para o amanhã.

Assim na arte como na vida. Porque pra mim é o mesmo.